Há dias em que me dedico ao suave murmurar do nada. Há dias em que me dedico a olhar o dia passando. E tudo, quase tudo, me parece o gesto do ponteiro repicando segundos. Há dias em que não vejo o sol e há dias em que mergulho na luz dos amperes. Nestes, eu me colo ao tempo como uma pintura de Goya. De olhos estatelados, sempre abertos, me impressiono. Eu me assusto suavemente em pálpebras largas. Há dias, e este é um deles, em que meus olhos empalam as fotos da vida. Rasgo as lembranças e amacio as pequeninas coisas. Vejo os contornos, as cores e os tons, bem colados à parede. E os sentidos ocultos se perdem na distância mais culta. Pois o sentido é dos dias me desfazer dos sentidos. Pois há dias, e este é um deles, em que me desfaço junto à parede.

quarta-feira, maio 04, 2005
terça-feira, maio 03, 2005
By Flávio Souza on terça-feira, maio 03, 2005
Fugi aos céus, largando a terra,
voltando em círculo pra beijar
teu mar.
voltando em círculo pra beijar
teu mar.
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By Flávio Souza on terça-feira, maio 03, 2005
Eu sou um vazio à cata de um minuto. Espero, soluço, sei.
E por certo seria melhor me apresentar com nomes.
Mas minha vida é rótulo aberto, dobrado, jogado ao mar.
Eu sou um vazio à cata de um vendaval. Incerto, sozinho, sei.
E por certo seria melhor não me enfeitar de nomes.
Mas minha vida é uma oração, caída, prostrada ao mar.
Eu sou a mão quente que ajeita a vela. Inquieta, sofrida, sei.
E por certo seria melhor me esconder dos nomes.
Mas minha vida é a fé batendo na pedra, dobrada ao mar.
Eu sou o vendaval que te espera. Incerto, sofrido, sei.
E por certo seria melhor esquecer meus nomes.
Mas minha vida é me fazer pedra, à espreita, no meio do mar.
E por certo seria melhor me apresentar com nomes.
Mas minha vida é rótulo aberto, dobrado, jogado ao mar.
Eu sou um vazio à cata de um vendaval. Incerto, sozinho, sei.
E por certo seria melhor não me enfeitar de nomes.
Mas minha vida é uma oração, caída, prostrada ao mar.
Eu sou a mão quente que ajeita a vela. Inquieta, sofrida, sei.
E por certo seria melhor me esconder dos nomes.
Mas minha vida é a fé batendo na pedra, dobrada ao mar.
Eu sou o vendaval que te espera. Incerto, sofrido, sei.
E por certo seria melhor esquecer meus nomes.
Mas minha vida é me fazer pedra, à espreita, no meio do mar.
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segunda-feira, março 21, 2005
By Flávio Souza on segunda-feira, março 21, 2005
Um cara que é o umbigo do mundo. Um cara comum, pessoa qualquer, voltado pra si, de papo para o ar, olhando para o alto. Acostumado, o cara a servir das caras e dos rostos, dos gestos e das faces. Servis, em prosélito a lhe servir. Um cara que é o umbigo do mundo, que é o ser humano chupando manga. Idolatrado, com travessas e manjares, nunca amado, e por suposto letrado. Subiu à pedra, sentou-se lá. Do alto, observa o mundo, do alto lhe olham no caminho oblíquo do sol. Em cima do sol, Romildo vê o mundo e embaixo o mundo lhe reveste. De honras, brincos e charme lhe vestem. Um cara que é comum, pessoa qualquer, umbigo do mundo. Mas o mundo era a pedra e a pedra era o mundo, morta a lhe servir. Mas a pedra, que era o mundo, cai-lhe por sobre a cabeça. E a pedra, toda pedra, toda dura, toda pedra matou Romildo. Um cara comum, umbigo do mundo, morto ao chão. Morto de empáfia, e agora cadáver, morto virgem. Virgem da vida, humilde e bela vida. Mas agora cantam na orla, no umbigo do mundo a estória de Romildo - o cara que sentou numa pedra, que morreu por ela, e amassado suspirou pela vida, chupando manga.
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sexta-feira, março 18, 2005
By Flávio Souza on sexta-feira, março 18, 2005
Naquela página do dia que é minha memória está assim escrito....não farás!
Mas naquela ânsia do dia em que se foi minha vida me fiz assim por ela,
um assim esquecer. E tudo foi como um rasgo no tempo... e nada além.
Mas naquela ânsia do dia em que se foi minha vida me fiz assim por ela,
um assim esquecer. E tudo foi como um rasgo no tempo... e nada além.
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