★ Flávio Souza Cruz ★

quinta-feira, fevereiro 10, 2005




Saudoso Ernesto,

Me contaram que andas calado, envergado pelo tempo, como se os anos o fizessem orar. E seria talvez bom nos questionar se não seria essa a posição o fechamento do círculo que da mãe vai ao pai. De certo, reflito, uns se desorientam mais pelas etapas da curva sempre curva, procurando obstinados por um retorno antes da ponta, sem a saber inexistente. Reabro meus olhos a cada passagem do vento na praia e a cada vento, me sinto ainda vivo. Porém, me contaram, que ousaras pular fora do traçado de teus pés. E foi assim que pensei, ser o salto uma espécie de mágica e cassino, destas jogadas nas mãos de um equilibrista bêbado. E relembro um velho chinês, que mesmo no torpor e com apenas um braço, pois que no outro ainda ardia uma garrafa, vencera trinta incautos em praça pública. E isso me dizia que até a embriaguez pode cheirar a perfeição. Mas enfim, me vejo agora a pensar se a ti seria melhor a curva do corpo ou o espasmo da alma. E de fato, é apenas uma questão de grau e do mirar na pulsação de nossos pés. Podemos marchar e como impávido olhante encarar, matar e por tudo passar. Nos esquecer do ângulo horizontal e nos fazer em trinta, orgulhosos pela batalha. Mas também e, no entanto, nos revirar como máquina de mãos, repuxando os baús do passado. Um andar, cairá de costas, quando o círculo se fechar. O outro, se encolherá em círculo menor.

Não sei mais se tu lembras daquela fazenda onde aleijamos o pássaro. Como loucos corremos pela mata, vendo o sangue traçar rastros nas folhas, soluçado por gritos que não mais se ouviriam no céu. Da arma apontada e do tiro perdido, da nua e crua desilusão de a todos não retirar da agonia. E desde então, tu vestistes as roupas daquele voar, que por sempre te ancorou triste, afora liberto. A Deus empenhaste a tua sôfrega mão num pedido de não mais fazer, de não mais querer e de sempre a tudo evitar. E como sina já escrita, tentar em vão sempre os pés em chãos por alma alguma pisados. Há algo sempre de doce que ao amargo foge no sangue que bebemos em cada sulco na linha sinuosa que trilhamos. O pássaro interrompido foi o nosso sangue que se fez meio ânsia. Devia porque devia ter te avisado, mas embarcara em nossos crimes que já não mais doiam. Retirávamos o peixe da vida porque o retirar era apenas o feito das aulas da semana santa. Foi então que te fechaste em febre e teu corpo transformado em largas manchas vermelhas era um arquear de dor. Orei por ti a cada minuto e a cada copo d'água que me pedias, era ver a lágrima da impotência te lancinar. Bendito aprendizado da terra foi este o tempo.

Eu aprendi com o pássaro que que a vida é menos do que fazer; já a ti sempre o vi com a querência pelo impossível reencontro. Aqui em Christmas Island tenho consertado as tábuas de minha casa, meu amigo. Pintei os poemas em toda a sala de estar, deixando branca a rosa dos ventos sul, leste e oeste. Espero agora por ti, Ernesto - a pintura do lado norte. Ele aqui, na ilha onde estou, é o que aponta para a praia. Um envelope chegará em breve com tua passagem. Te aguardo agora em círculo sentado, Ernesto. A ilha te espera.

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