★ Flávio Souza Cruz ★

★ D R E A M S ★

★ M A G I C ★

★ F A N T A S Y ★

segunda-feira, novembro 24, 2008

Uma velha mulher, seu canto e suas odes. Desenho um arco no chão e me cubro de suas lembranças. É tarde — me parece que a vida já vai se pôr... Uma voz grave recita versos em outra língua. As palavras me cobrem a fronte — circulam como chama em meus olhos.

De joelhos, aperto a terra nas mãos e vou sentindo o sangue a pulsar em meu pescoço. Observo acima e vejo as escadas coladas à parede. A mulher está lá. Seu canto está lá, recitando para a fumaça das nuvens. O horizonte vermelho vai se borrando ao final dos prédios. É tarde — me parece que a vida já vai se pôr.

Me lembro da última palavra não-dita, do último olhar não-visto, da última vida perdida — "da palavra aos olhos, da vida à terra, da terra ao coração..." O sangue pulsa em pesados coágulos redondos. A noite está vindo, a janela ainda aberta, meus olhos para cima... meus olhos amarrados, só nela a pensar.

A janela abaixo, meu olhar para cima. A tarde caindo, a velha senhora. Janela fechada, o olhar jogado à terra. Alguns passos e mais a sombra, um sapato e nada aquém... foi a vida a esbarrar nas minhas costas. Não houve fim e nem um começo. Do alto à terra, do quarto à rua, do canto à mim - somente o perpassso.

terça-feira, novembro 18, 2008

Uma carta é um relato de intenções. Tingida de branco, sangue ou lágrimas a carta é, em seu próprio papel, uma velada intenção de transportar universos. Letra pomposa, rabisco difícil, ornada de flores, entregue em mãos... a carta é, antes dela mesma, uma brincadeira. Jogamos esperanças e expomos aflições em papel tal como o rolar de uma bola de gude. Montamos buracos e seguramos a roda do tempo para no espaço certo tocar a esfera de nosso intento. A carta planta respostas no jardim de nosso querer.

Ismael trabalhava com letras. Desde pequeno, soubera sua missão - costurar palavras. Voz calma, olhar sereno, Ismael recebia de bom grado pedaços quebrados de intenções. Eram muitos e vinham de todos os cantos trazidos por olhares mil: "Costure aqui, por favor... olhe ali aquela letra faltando... lembre-se do envelope, heim!"!

Trabalho árduo, muitas vezes ingrato, repetia-se ali nas mãos do bom rapaz a mágica das mariposas. De duas pedras fazia ele o fogo que queimava em letras no envolver de seus dedos. E no crepitar da foligem, no sopro da labareda salpicavam mariposas em brasa. O ar era então um rasgo de asas enfeitiçando o vento. Rodavam, planavam, zuniam as mariposas em volta da chama. Olhos dourados e frêmita mão - Ismael segurava o sopro do fogo e com palavras fortes marcava uma por uma com letras por língua escrita o ventre das mariposas. E assim caiam uma por uma com o queimado ventre por sobre o amarelo papel do dia. "queima queima dor, faz no vazio incerto, carvão e sombra virarem flor", repetia ele em cada leva. Pétalas não só em verdade, mas de espinhos também se colhiam nas queimaduras do papel. Pequenos mundos de sonho e dor tomavam forma de desencanto e amor em cada mariposa morta.

Pães e pedras eram dados como paga, mas era dos olhares que Ismael se alimentava. Mastigava bem mastigado cada pedacinho - olhar de pedinte, alegria e volúpia, desalento e amargura, envergonhado jeito, e também às vezes do mais puro amor. Os pães do mundo eram feitos e seu vinho, um molhar de olhares. Nem sempre lhe apetecia o labor, é verdade. Pelas manhãs regorgitava suas mariposas e sentava no canto do quarto a desenhar as trajetórias de fogo. E cada desenho, cavalo alado, casa de pau-a-pique e noite estrelada por peixes, cada rabisco era uma página de seu livro de memórias. Vez por outra, uma mariposa suicida doava seu sangue em chama e escrevia por si mesma uma letra no livro de Ismael. E era tal o encanto da vida-morte que cada página letrada do livro dos desenhos entoava um canto quando aberta.

Dizem que Ismael se foi para os jardins do esquecimento. Virou lenda, boato, conto de caboclo daqueles bem perdidos que a gente só encontra nas taperas do mato. Na noite clara, no entanto, vejo-o andando aqui mesmo dentro de mim...fazendo trilhas de fogo... "meio sem rumo", penso eu...jogando por vez página de cavalo alado, casa de pau-a-pique, noite estrelada por peixes, uma labareda mastigada a nos calar.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Conferir os excelentes trabalhos do artista mineiro Cao Guimarães! Dentro do site, sugiro procurar por "estórias do não-ver", no qual o artista pediu para ser "sequestrado" com os olhos vendados em diversos lugares diferentes, narrando então as sensações passadas.

Um blog extremamente interessante é o TrollMoon - dedicado a falar sobre estes bichinhos "fofos" chamados Trolls!

quinta-feira, novembro 13, 2008

Este é o nome do meu próximo livro. Ele será feito em 40 dias e 40 noites em uma viagem que farei daqui há mais ou menos... 40 dias para lugares bem distantes! Você poderá encontrar o texto do livro bem aqui!...

Pois é! Está fechado! E assim ficará por bom tempo [uma pena]. Mas quem é leitor do Epifania não ficará desamparado! Prometo que postarei sempre por aqui "partes" das Papoulas de Eurásia. Óbvio, vou fazer um teaser pelas páginas do Epifania. E a cada postagem sobre as Papoulas por aqui, mais e mais vocês ficarão curiosos para saber como cada estória terminou... E mais... ficarão mais e mais [muito mais curiosos] para saber como a ESTÓRIA das Papoulas de Eurásia irá terminar.

Maldade isso, não?! Eu também acho... Uma coisa, no entanto, eu prometo! Eu vou abrir a Caixa de Pandora neste livro!

A imagem acima é uma versão alterada da obra "Estrada de Papoulas" da artista Za Ellob.

quarta-feira, novembro 12, 2008



Foto roubada do Le Divan Fumoir Bohémien. Aparentemente ela foi tirada do livro Des bibliothèques pleines de fantômes de Jacques Bonnet. E antes que me perguntem se são os livros o meu sonho de consumo, eu já respondo - "Nãããooo! É este conjunto inusitado e maravilhoso da obra plena e completa de se colocar uma bela e voluptuosa mulher junto à profusão de livros desta velha estante!" - Isso merece um voluptuoso texto!

A Mão e a Palavra

A palavra percorre o lábio a se morder. A palavra mordida baila, circula, circunda e escorre. Desce pelo corpo, serpenteia. A palavra esquenta, humidece, baila. A palavra percorre o ombro, serpenteando pelo ante-braço. Desce, escorre, molha a pele de suor. A palavra percorre a palma até os dedos, circunda, preenche. A mão agora é o verbo, permeia o espaço, procura a curva. O cheiro é ocre, perfumado. O desenho percorre a vulva. Deleite ao toque, um círculo e outro mais. Um apertar de nuvens vermelhas eriçadas em tez. A palavra suspira, geme, se enche ao toque. Pronuncia o sagrado rasgado em nudez. A palavra toca, o sangue faz voltas. A pele rosácea em espasmo enrubece. A mão e o toque. A pele no corpo. O corpo e a chama. A alma reverbera. A mão toca o lábio. E o o lábio agora é o seio. A palavra inaudita respirando aos passos de um suspiro a gemer. Os dois e agora um. Os livros e agora ela. A mão e a palavra. Agora um, teu seio, rubor, meu livro, a mão e minha lavra.

terça-feira, novembro 11, 2008

1 - Eu já estou de saída. Mas não posso deixar de postar o The DarkHouse Quarter! Quem se aventurar a entrar... faça uma boa viaaaaagem! Eu, por mim, comento quando voltar! Hasta!

2 -Uma dica musical para lá de estranha e não classificável é Abney Park - Sleep Isabella - Steampunk Music. Um grupo meio bizarro e para lá de poser - mas gostei do sonzinho! Vale a pena conferir! Aliás, por sinal, tem algo a ver com o item 1.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Há dias, e amanhã será um deles, em que a balada das horas é um recital a colorir. Acordarei ainda na tintura anil do meu hoje, roubando pedaços de uma nuvem a se esmaecer. Aportarei meus dedos pelo chão. E todo um quê de laranja vou sentir no mastigar de tijolos. Me descubro na transparência do banho. A limpeza abençoará meus pecados da noite — as penas de me curvar à alegria, me fazendo maestro-aprendiz e de me vestir em paletós verdes da poesia. A segunda me preparará o ventre das pedras. Me reconhecerei mortal e escalarei vontades alheias. No amanhã, serei a fantasia de ontem, o reencontrar das palavras de ferro. Mas em tudo, e neste amanhã, invocarei novos tons e prometo a mim mesmo - não fecharei o ponto sem da parede antes deixar minha marca. Uma pixada lembrança ao carcomer do amanhã. Mas hoje direi "não!"... não ainda... novas tintas, somente amanhã! Porque há dias, e o amanhã não é um deles, em que me permito devassado como um codex a se rasgar pelas mãos.




domingo, novembro 09, 2008

Neste findar do dominus dei, antecipando a maratona do amanhã, vou indo com essa maravilhosa interpretação da minha diva querida Cida Moreira, juntamente com o ator multimedia Andre Frateschi para a canção All the World is Green de Tom Waits. Que belíssima e contagiante interpretação... Belíssima!

Eu acabei de criar um novo espaço no Epifania, chamado Artevarias Blog. Fica ali logo do lado direito após a lista de blogs do Epifania. Trata-se de uma lista de blogs ligados às artes em geral. De arquitetura à xilografia, passando por arte japonesa e ilustrações medievais. A lista foi montada a dedo, depois da visita a pelo menos uns 200 blogs da área. Modéstia a parte, ficou uma lista espetacular. Confiram!



Livro para todos & a Bienal dos Piores Poemas

Meu amigo Tiago me mostrou este ótimo site chamado Projeto Livro para Todos. Lá você conseguirá baixar vários livros em pdf ou doc para o seu computador. Vale a pena conferir! Já o meu outro amigo Perro Hongo, acaba de me mostrar a VI Bienal dos Piores Poemas! E olha que é por aqui pelas bandas de onde é escrito o Epifania!


Lista de Presentes do Epifania

Se alguém quiser contribuir para a felicidade deste escriba que aqui vos fala, humildemente lhe deixo a lista de presentes do Epifania! Lembrando que o natal está chegando, heim!

sábado, novembro 08, 2008


Torne-se um "caminhante de Santiago" [no Chile] deste blog pest-moderno e maluco com pretensões de Saramago! Saiba sempre das atualizações e das coisas que aparecem por estas páginas logo pela manhã.

Torne-se um leitor compulsivo do Epifania! Não perca esta oportunidade única na vida! Coisas assim, não acontecem todos os dias - sarça ardente, dedo de deus na pedra, pauleiras com Jacó pela madrugada... e por aí vai!

Torne-se um seguidor do Epifania!

sexta-feira, novembro 07, 2008

Perguntei hoje ao meu amigo Perro Hongo sobre o que seria esta imagem aqui encontrada no blog A cozinha da Maloka Elétrica. Ele me disse que deveria ser alguma das ilustrações do Andre Thevet ou do de Jean de Léry, franceses que acabaram aportando aqui pelas nossas bandas por volta do século XVI. Desta feita, resolvi procurar por algumas xilografuras legais para postar por aqui, principalmente algumas de bestiários.

No meio do caminho, acabei encontrando este interessantíssimo blog chamado Gramatologia, voltado para artes gráficas ligadas à publicação de livros. Especialmente, gostei muito do trabalho de Vincent Geneslay.

Procurando mais sobre o Geneslay, fui cair em uma página francesa especializada em recursos para calígrafos como penas e tinteiros. De lá, temos estes fantásticos livros aqui. E eu confesso que daí para frente, lascou tudo — exemplo de como esta mardita internet pode nos levar a descobrir coisas fantásticas. E eu acabei decidindo que a capa do meu livro será algo paracida com este trabalho aí do Geneslay:



Ps 1 - Se eu tinha gostado do que andei descobrindo, imaginem só a viagem que estou fazendo pelo BibliOdissey. Como diria o velho e bom Hermanoteu: "DUKARAAI, VÉÉÉIII!!!"

Ps 2 - Dada a profusão de coisas legais neste surto webelístico que estou percorrendo, cheguei à conclusão que este tópico vai render muuuito mais do que eu supunha. A descoberta maluca do momento é a Sociedade do Labirinto!

quinta-feira, novembro 06, 2008

Para quem não me conhece, eu sou aquele cara que vive na casa da montanha. Não que eu de fato e maravilhamente viva por lá. Mas há alguns bons e bons anos, esta tem sido uma das minhas principais metas - ter uma casa em uma montanha bem fria, com uma boa lareira de pedra, muita madeira e um ambiente altamente aconchegante. Nesta trilha de bem viver, desde 1995 me tornei fã das chamadas countrie houses - um mistura de estilo rústico de casas do interior da Inglaterra e dos EUA. Adquiri um enamorado hábito de ao visitar a livraria status sempre buscar por revistas de arquitetura e decoração relacionadas às countrie houses.

Desde esta época, passei então a desenvolver alguns planos futuros para com a minha própria country house - que será, com toda certeza do mundo, especialmente singular... enfim... assunto para outro post. O fato é que me deu hoje a idéia de procurar por blogs que tratassem do assunto. Fiquei sem saber se postava isso no Hiperfocus ou por aqui, mas acabei achando que o Epifania seria o espaço ideal. Então, ainda nesta busca pelos mais legais blogs sobre o assunto, vou postar alguns que achei bem convidativos. A lista não é ortodoxa e em alguns destes blogs encontraremos materiais que não são necessariamente relacioandos com este estilo. De qualquer forma, para quem gosta destas coisas, prepare-se para uma boa viagem:

Café Cartolina # Pigtown Design # Hill Country House # Curious Sofa # Little Red House - confiram especialmente a foto inicial deste blog e terão uma boa idéia sobre as coisas das quais eu andei falando ali pelo começo do meu texto. # The Book Blog # Decorating Fanatic # The Inspired Room # Around the House # Lá em casa - este é um blog tupiniquim. Não encontrei um brasileiro específico sobre casas no campo pelas nossas bandas. Mas seria muito bom encontrar um. Se o caro leitor conhece algo assim, deixe aqui um comentário!


Fotógrafo: Frank Juery

segunda-feira, novembro 03, 2008



Humildemente me imaginei vendo um filme baseado em um texto meu. E fiquei ali parado como se tivesse entrado nos pensamentos do Saramago e viajado na trajetória da sua pena ao escrever o livro. O ponto final e The End do filme.

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